Era preciso attendê-la. Era uma creatura excepcional. Mas, por isso mesmo, horrorizava-o o excessivo carinho que lhe notava. Admirava-a como mulher, mas temia-a. Era uma sensual que tinha percorrido a gamma do mais extravagante teclado da vida. Quereria porventura matar um novo capricho? E elle que só usava creaturas inferiores, que percorria altas horas os becos mais suspeitos a recrutar mulheres de acaso, como se haveria deante da mulher invulgar?!

Ah, se encontrasse pelos prostibulos mulheres daquellas formas!

Mas ter relações sensuaes com ella, uma intellectual, que havia de estar a ver, a frio, as suas atitudes de animal enfraquecido, cahindo, segundo o costume, na hysteria, que é a carne entregue a si propria, a velocidade adquirida do prazer a derivar na loucura!

Isto, se a commoção lhe deixasse ver nella a mulher!

E, muito triste com a ida da Artista, ia contando os dias, num horror de frade que treme da primeira tensão da carne.

Ah! elle era bem culpado, pensava. Podia ser como toda a gente. Se se deixasse de requintes não temeria mulher alguma. Mas degenerára-se.

Exigia sempre nas relações uma certa liturgia; dahi o seu pessimismo litterario, o pessimismo em tudo.

E, involuntariamente, lembrava as palavras de Lichtenberger:

«O pessimista é um degenerado, um doente que deve curar-se ou partir, mas que não tem o direito de empeçonhar a existencia dos sãos, de desmoralizar os potentes, de calumniar a vida».

Como sentia aquellas verdades!