E mordia-a suavemente.

Depois, afastando-se:

—Vae buscar aquella pelle de urso. Cobre o escudo dessa alcatifa. Extranha idéa—brasonar tapetes! Que os outros pisem os nossos brasões vá, mas nós! Deita-te aqui, minha creança.

E desabotoando o vestido côr de hortensia:

—Faze o mesmo que estou fazendo! Despe-te! Já!... Vê como as sedas da pelle do urso se levantam. E olha que são dum urso do pólo!

Nada resiste ao genio sensual!

E, de repente, enlaçou-o pela cintura, fazendo-o tombar, passivo e tremente, sobre a pelle branca.

A physionomia de Peregrina espectrava a alegria selvagem da louca, que, numa ancia de luxuria, se preparasse para devorar o amante, depois de esfarrapá-lo.

A expressão de Nuno era de dor acceite. Lembrava um religioso a deixar-se maltratar, sorrindo aos cilicios, crente num ceu a apparecer!

De subito ergueu-se sobre o corpo de cobra da amante, e, num momento, desmanchou-o uma extranha furia; cahiu em coma, voltou a soffrer, sereno, o martyrio daquella mulher, cilicio de amor, simultaneamente divina e infernal, sagrada pelas fórmas e demoniaca no capricho das perversões! Até que cresceu, de novo, em tempestade; e, sobreexcitado, inconsciente, sacudiu-se em crise hysterica, e impelliu Peregrina, que tombou, exánime, ao longo da alcatifa...