Coincidencia curiosa:—sonhei esta noite que tinha ido ao Paço das Côrtes, que não servia já o actual regimen, mas um outro.
Entrei. Havia deputados e senadores, escolhidos dentre a primeira gente e a ultima corja da nação—dispostos atabalhoadamente, pela sala, em Carrara, granito e gesso. Vi-me afflicto entre aquellas figuras de museu politico, que mal conhecia, com quem não queria privar.
A um canto barafustava um velho a elegia do Passado. Era uma figura moldada pelo tempo em granito e gesso.
Subito, vi mexer o busto do Propheta, que estava ao centro do salão,—nariz em bico de aguia, testa alta, repas finas e ralas. Jorrou dos olhos redondos de mocho velho duas columnas obliquas de negrura, desfranziu a boca de satyro, e falou assim:
—Nacionalidades! Patrias! mentiras de poetas...
Heroes são poetas de mentiras!
Systema latente é trapaça a chocar.
Videntes são loucos a sonhar, cegos vendendo luz!
A Vida é o que cada um quer. Só a Arte vale, a Arte, o fio-mestre da Vida!
Nacionalidades! Patrias!—mentiras de Poetas. Portugal! Hespanha!—Versos, trastes velhos!