—Não achas curiosa, Ruy, a coincidencia? E como no fundo o sonho é verdadeiro?
Sabes o que vae ficar, provisoriamente? Quem vae governar?
Não sabes. Vae ser um arremêdo do Grão-Lama.
Não conheces, nem imaginas quem seja?
Vou explicar-te essa figura, já que não lês o Escriptor-santo, em cujas obras vem retratada.
O Grão-Lama é uma figura que os chineses conceberam perduravel, um homem eleito Deus por uma casta da China antiga, rodeado de ritos, uncções e virtudes, substituido cautelosamente, secretamente, apenas morto, por outro, semelhante em parecer; no nosso caso, sê-lo-á por outro semelhante em manhas, até que o Destino funda, providencialmente, embustices e embusteiros, em sacrificio a uma civilização por vir...
O Grão-Lama do Ocidente ha de ser um litterato que somme a idiotia das Academias, e tenha a presumpção da visão dos tempos, um misto de Bandarra e Gongora, prenhe de democracia e lettras.
Se era esta a figura que trabalhavas...
—Sei lá para que trabalhava. Sentia necessidade de privar, já te disse, com os meus eguaes; não se foge ás affeições que o Destino impõe. A affeição é do Destino...
O Destino pode ser a Raça. De politica nada sei, nem quero saber. A Raça mandou-me suppurar na Politica o odio innato, viver na loja secreta a miseria intima.