Segue a labuta da marinhagem em litigio com o mar.
As tripulações enxergam ao largo leguas de terra; e, apesar de correrem perigo de abalroarem, não se vêem.
Lançam os do rebocador a nova amarra a cada approximação das barcas; e a amarra, que fluctua ao acaso um traço de oiro, colleia, desmanchada, as cristas das ondas que a retorcem, simulando enguli-la.
A meio da faina, passada entre um cyclone de odios e orvalhos transparentes, ha grita da tripulação. Mas esta desordem é suggestão do mar. É a voz de quem vive o elemento, syllabando forte, em ondas roucas, a linguagem da agua.
Afinal, lá vingam atar de novo a amarra. Sôa o grito aspero da sereia do vapor, abrindo notas de falsete na tempestade.
E as barcas, uma a uma, lá vão transpondo a barra.
Se a tempestade acalma, ceu e mar invertem-se nos tons:—o mar simúla uma caixa azul, em que o ceu branco, fofo de brumas, tampa o espaço.
Chega a noite, passando a sombra as figuras tragicas dos maritimos. Aves longas flecham o espaço em traços rectos. Patos bravos, em bandos negros, como gondolas á ventura, regressam ás aguas fundas.
Peregrina regressava ao caes. Era á hora em que os lampiões dos molhes zebravam de luz a ultima agua.
A Artista ia a sahir ao molhe do nascente, junto ao candieiro roxo.