Talvez, por isso, tenha pisado os lupanares com o respeito devido aos templos...

O prostibulo é, tambem, um Templo; a sensualidade uma religião, uma grande e ineffavel religião, o culto immenso do Amor, para além dos ritos, dos mil preconceitos dominantes. Mas, a despeito desta consciencia do Destino, desta razão de talento e de sangue, sinto-me vencida, desilludida.

Cancei a imaginação no encalço de creações precisas á minha razão sensual de existir.

A sensibilidade de que fui dotada não me permitte que espere o fim de toda a gente. Debalde o tentei.

Sinto necessidade de viver em outros mundos. A podridão brilhante que me atormentou a vida vae compensar-me de bens que presinto marcados para além desta valla de torpeza honesta.

Cumpri; não posso demorar-me: basta de conflictos com o semelhante.

Esta lucta é inacreditavel a quem a não viveu. É o conflicto da idéa pura feita Arte, sensibilidade, sentimento, contra a bruteza do temperamento medio.

Quantas vezes afoguei commigo miserias, casos exoticos dum capricho cruel! Embriaguei-me de dor, daquella dor que á volta de mim cachoou desgraça—um mar de fatalidades, para que ali naufragasse.

Afrontei este mar ás braçadas. E nesse Atlantico de verdete, absintho de amarguras, com phosphorescencias tenebrosas me fundi eu toda, alma e corpo, para batalhar e seguir, louca, ora encapellada contra a penedia immensa das praias malditas—as que os homens povoam, ora espraiando-me, numa gaza de mysterio, sobre doirados areaes, suave, ternamente, como um mar vulgar em horas mansas.

As ondas deste mar foram os meus sentidos:—um infinito de sentidos, os que se attingem pelo estado sensual...