Alcancei pelo sonho uma vida vallada e circumvallada de sombras.

Fui a somnambula, soffrendo e amando pesadelos que me eram dolorosamente gratos.

No mar de sensualidade em que me afundei, em que muitas vezes me solvi, tive horas de sêde, duma sêde obsessora, horrivel! Era o desejo inconsumivel, a febre, a chamma eterna duma aspiração de raça condemnada pela grossaria dos outros.

Chamma eterna, de certo, pois que falo por mim e pelos temperamentos que no passado choraram em silencio horas que tenho repetido, e pelos superiores do futuro, figuras talhadas pelo Destino para continuarem a Dor!

Coisa horrivel é roçar o semelhante e proximo!

Entre mim e os desgraçados para quem falo, aquelles que entornam as suas lagrimas no silencio—medeia a minha coragem, um ousio que os passados não tiveram, que talvez os futuros não tivessem sem este exemplo...

Este mundo, que estimei com amizade amorosa, ousando transformá-lo num mundo affectivo, parece-me, á hora deste inventario, obra posthuma, uma ilha de cães vadios, malditos, em saldo de contas com os raros que sahiram a perturbar a sua orchestra de alegrias.

Miseravel exercicio...

A Belleza é una no seu abraço colossal de todo o concebivel e concebido.

E só para ella deve viver-se. Os superiores começam a sentir aquella unidade, na fusão das linhas puras, em toda a obra da materia donde vôe o espirito. Venus e Apollo têem um significado conjuncto; são provas de Belleza que se completam e ajustam numa synthese que o super-sensivel realiza.