Sempre que intravazava o odio alheio, reconhecia, após horas de tortura, estados novos, de que manavam fontes suaves de riqueza espiritual. Ás vezes, sentia eu propria necessidade de concitar esses odios.

Esta attracção exprimia o braço do Bem e do Mal,—o instincto duma grande missão de Unidade a colligir os recursos do Novo-Mundo da Belleza. A grande elementação desse mundo não dispensa o Mal. Toda a creação é dolorosa.

Gosar o soffrimento é acceitar aquella missão. Mas, porque só os maiores a acceitam, só elles a gosam, exprimindo em Arte o agridoce daquella dor.

O vulgo mal comprehende a tortura dos eleitos, o que reflecte de grandeza sobrenatural. E a Sciencia não alcança mais! Que eram os apostolos quando se deixavam retalhar, a sorrir, de olhos fitos no Além?

Para o povo eram santos, para a sciencia—loucos. Erro grosseiro é ler a Dor atravez das lentes escuras que vestem os olhos de tanto myope! Como falseiam a missão da Belleza!

Loucos os apostolos duma Religião!

Tambem vou ser acoimada de louca! Quantas affinidades com elles hão de encontrar-me... E talvez, inconscientemente, a Sociedade acerte. O que é um louco?

É o espelho de melhor ou peor crystal, biselado ou lizo duma alma sem artificio a viver desvairamentos. É o absoluto em sinceridade—o que ri, e chora, odeia e ama sem trapaça, indifferente á sociedade que o espreita, o que despe a alma na praça publica sem caridade por si, alheio a quem o vê.

Na escala da loucura ha os criminosos-loucos, que dão á sociedade pretexto a que ella os enclausure, para melhor os explorar, e ha os outros, os que ella frecha de infamias, emparedando-os de preconceitos, dando-lhes a liberdade de sonharem alto, para que possam ouvir-lhes o sonho, e impedir-lhes que realizem desvairamentos, por vezes geniaes...

São os criminosos, os santos,—todos os reduzidos de entendimento, como os que o possuem accrescentado duma sensibilidade incomprehensivel. O mundo ri egualmente da treva dum inferior, como dos supremos desvairados.