É isto loucura? Sei lá! Talvez sonho...

Por meu mal, sonho sempre. Batalho ás noites com phantasmas. A outra noite, foi com phantasmas de Belleza. Assisti a uma refeição nova, a refeição da madrugada, na Villa-Feia.

Jehovah, entendeu-se com os do Olympo e a pedido de Apollo, que me convidára, quietou o tempo numa luz branco-cinza. Jupiter emprestou Ganymedes para servir os nectares, o mel, os fructos; Jehovah mandou seraphins, rosas...

Os convivas eram Nuno, Apollo, Venus, adolescentes morenos de culpa, que fui resgatar ao inferno catholico; Sebastião, o ephebo-martyr; Edgar—muito discreto e lindo no seu nu côr de tocha;—Ruy, abraçado a Nuno, a afogá-lo no mar de luz do seu olhar velludento, verde de vicio;—Helen, feita sereia vegetal, erguendo a cabeça airosa e loira dentre petalas de açucena;—finalmente a Hermaphrodita, a Penedia enorme, que vi espreguiçar-se, mover o peito, as coxas de gran, e levantar-se, suprema, para vir tambem tomar parte na refeição, penetrar-se da essencia, do olor das rosas.

O nectar era servido em flores de magnolia e peonias...

Começou a refeição; pedi mel. Veio Ganymedes servi-lo; mediu cem violetas do oiro-doce para a copa dum lirio que beijou e correu a trazer-me. Bebi dum trago o lirio-calice da loira resina. Pedi os fructos, as flores da figueira—figos tumidos de carne-vermelha, coberta a seda-amethysta; quiz romãns, damascos, peros de Deus... Sorvi tudo. De repente, ao tomar a terceira peonia de nectar, senti-me entontecida, deliciosa e horrivelmente nauseada!

Era o olor das rosas, a essencia do nectar, dos fructos, daquella Carne tocada do genio dos divinos oleiros, o perfume das taças,—tudo a perturbar-me!

Evoquei os Deuses e acordei ao grito da sua voz, que era a voz da minha queixa! E, acordada, volvi a pedir-lhes que de novo me remetessem ao sonho, e me asphyxiassem, de vez, pela Imaginação!

Queria morrer imaginando, abrupta ou suavemente, mas do mal-de-sonhar...

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