Demais, sempre no meu ponto de vista de Arte, não me é indifferente noivar com um rapaz tão bello como tu.

—Maria! Despe a intelligencia e entrega-te! Veste, como eu, o espirito de animalidade, e deixa que a nossa carne se entenda.

E, abraçando-a, lançou-a sobre a cama estreita, collando a sua boca á della, e emmaranhando-se-lhe nos cabellos, que, desmanchados, desceram como uma segunda noite, a agasalhá-los...

Sobre a madrugada Maria Peregrina afastou, suavemente, os braços de Edgar e disse-lhe com fleuma:

—Vamos, arranja-te. Creio que não quererás que te procurem aqui.

—Conforme, disse elle, se o facto de nos encontrarem aqui nos obrigasse á união para sempre, gritaria já daquella janella o meu triumpho. Porque foi um triumpho para mim esta noite, não é verdade? dizia mordendo os labios vermelhos de Maria. Quebrei o Enigma. A Esphinge era uma mulher, embora a mais preciosa das mulheres, a unica que Deus poderia dar-me e tambem a unica, Elle sabe, que eu lhe pedi!

Eu andava ha muito a procurar-me. Perdera-me a sonhar... Encontrei-me em ti. Vi-me á luz negra do teu olhar, fluido de amor e perdição. Os teus olhos são como o genio da aventura:—reflectem amor, lucto, Belleza dolorosa... Como sinto os enleios negros do seu fulgor, penumbras de sonho e loucura!

Vejo atravez delles a alma da tua raça—aquella que elles discorrem, fataes de amor.

Adivinho-me junto de ti na primeira hora em que viveste, aquella em que odiaste outra luz, e exclamo:

—Ahi está a Artista, uma Raça que vae chorar, cantando; recemnasceu o crepusculo do grande povo, aquelle que viveu madrugadas e vae morrer Poeta, amortalhado na sua alma de sombra.