No teu corpo de marfim e sêda, realizou o Divino da Belleza um sonho luxurioso, aquelle sonho que Elle viveu um momento, confundindo-se em ti, em mim. Escreveu na tua boca de dahlia a nova redempção—a prophecia de prazer que o universo syllába a mêdo e que os teus labios franzem, reprêsos de amor. A Vida é o Amor, o nosso Amor... Como recordo a Noite! Tudo o que havia de voluptuoso ella atrahiu e teceu, descendo, interessada, a possuir-nos.

Sinto o roçar velludoso do seu tecido de mysterio e vicio. E chego a ter zelos das suas caricias. Só tu devias ser presente. Eu proprio queria ser ausente... em ti. Houve no nosso amor um erro, o genio da tua carne que um momento interessou tudo!—Oh! como odeio a Noite, a sombra immensa de todos os delictos e volupias que o Ceu espectra para vingar a pureza, a abstinencia eterna...

Soffro e amo o teu genio—o genio do erro que me faz abdicar de mim, mirado nos encantos da tua figura de chamma, ateada de imprevisto.

Como te amo! Transformas tudo. Se até solves a nevoa que turva o olhar da minha raça!...

Vê como eu, que sou da nublosa Irlanda, me sinto peninsular ao pé de ti...

Mas que passividade é agora a tua? Então, minha querida, fala! Olha que já não és a Esphinge...

E, tocando uma minitura de esmalte, florida de diamantes:

—Deixa ver isto; quero ver, com vagar, o teu unico traje desta noite. É lindo vestir sómente uma joia na noite de nupcias.

E reparando:

—Ah! é a Sapho de Pradier.