Perdôo-lhe porque esteve calada... Foi discreta.

—A peor Sapho para ti, Edgar, não foi ella, fui eu. Digo-te, com desgosto, que a Esphinge permanece. Nem um só minuto vasei a minha alma na tua!

Não me arrependo do que fiz, pois que consegui o que esperava,—soffrer. Foi uma noite que sacrifiquei á minha saudade. E deu-me volupia o soffrimento, como dá sempre. Mas lembra-te de que te vejo hoje peor do que nunca. Eu sou como os aleijados que não perdôam aos que possuem corpos sãos. A minha alma é doente, não perdôa a tua alegria em possuir-me á custa dum prazer de que eu soffri o avêsso—ondas dum horror que hade durar...

—Por quem és, não me relegues ao inferno depois de possuir-te. Irei para onde fôres. Já ninguem nos separa. Respeitar-te-ei todos os caprichos, até loucuras, que eu sei que o genio as tem... Só uma coisa quero—o direito de fundir a beijos o teu corpo...

—Basta, Edgar! disse ella, dando-lhe a capa e acompanhando-o até á porta. Deixa-me! Não exasperes a minha sensibilidade, duplicando o meu horror por ti. Vae!...

E, fechando a porta sobre Edgar, que descia cauteloso e somnambulo a escadaria, foi, semi-nua, como estremunhada, procurar no segredo dum movel o retrato de Helen, que ficou a fitar por largo tempo.

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No dia seguinte tentou Edgar falar-lhe. Queria discorrer sobre a noite antecedente, aquella noite que lhe custara canseiras e milagres, pois que teve de atravessar pavilhões ás escuras, saltar e assaltar janellas, resolver difficuldades, até que, vencida a mulher dos seus desejos, a via, de subito, despedi-lo como uma creatura desprezivel, porque a amava!...

Que extranha aventura! Podia ser? Mas quando ia para se approximar, sentia uma tal commoção... depois, parecia tão firme o proposito de Maria em afastá-lo, que elle proprio, sentindo por si a repugnancia que lhe inspirava, era o primeiro a fugir, corrido.

Succediam-se os dias até que Edgar soube por Violet que Maria Peregrina ia sahir do collegio no sabbado seguinte. Assim o fôra participar ao director. Era uma segunda-feira.