—A Noite faz em mim o dia, affirmava. Á hora em que tudo está alegre soffro eu a minha Arte. É nella que emprego os dias, pois que é de todos os soffrimentos o mais voluptuoso.

Horas mortas tornejava a oeste de Trafalgar square, por Haymarket, Picadilly, sob as arcadas de Pall Mall, errante por entre o rancho de bacchantes, perdida na onda de luxuria que é Londres a taes horas.

Frequentava tudo—o Savoy, Empire, S. James, Alhambra, as ruas onde as retardatarias entretêem a fome, sorrindo a quem passa, os logares onde havia luxo, miseria, erotismo, alcool...

Os inglêses, affirma Stendhal, serão os ultimos a acreditar no inferno. E, por isso, elles, sem o entrave religioso que embaraça os outros povos, soltam á vontade o seu desejo animal, num desdobramento que excede tudo.

Eram estes requintes que Maria Peregrina apercebia e queria viver.

Wilde tinha-lhe escripto um dia:

—«Aquelle que se entrega absolutamente a si proprio, não sabe nunca aonde vae parar».

Queria lá saber aonde iria ter?

O que desejava era calar os nervos, a sêde de imprevisto, que a queimava intimamente. Sahia a explorar a noite. Pelas ruas havia renques de mulheres, duma fealdade de arrepiar, ao lado de creaturas mal crestadas do tempo, nas quaes a belleza persistia, apesar do vicio e das doenças.

Não era a belleza graciosa, que contrastava a mulher de alguns paizes, nem a classica, nem a sensual que caracterisa o mundo feminino do Oriente, ou a belleza crepuscular do Ocidente e Sul—a belleza que ella encontrava nas poucas mulheres formosas da Inglaterra.