Mas não havia occupação, por mais interessante ou impertinente, que lhe aquietasse o gosto, exigente de origem.
Por toda a parte encontrava suggestões á pratica do vicio lesbico, sem que volvesse a encontrar a passividade amoravel de Helen, dando-se-lhe num corpo que era o sonho da sua alma ocidental de decadente.
Pelas ruas deparavam-se-lhe moços espartanos ao lado de raparigas esbeltas, de saiaes tufados, redondos pelo joelho, com o kepi grego de borlas, de jalecas curtas, segurando peitos cheios.
Mulheres e rapazes de Corfú, e demais ilhas proximas, passeavam corpos e trajes bizarros, que prendiam aos restos duma civilização de requinte.
Tambem a flora de Athenas parecia prender-se á decadencia daquelle solo que fôra a joia do vicio no reinado da Attica.
Tudo a inculcava como um marco da velha cidade da carne e da orgia.
No entretanto, Peregrina, admirando aquella belleza, prodiga de imprevisto, não a sentia. Era uma belleza que suggeria, não a apaixonava.
—Toda a parcella de belleza se gasta ou transforma, dizia. Não ha belleza em porções, permanente. Ha unidade no Bello, o que é diverso.
A velha Hellada desmanchou-se em holocausto ao mesmo hellenismo. Era preciso assim. O proprio desmancho e renovação de civilizações, o caldeamento do sangue, transfusão das raças, e mistura de genios, é que asseguram a unidade da Belleza, na sua concepção liberta.
Em rasão desta unidade, explicava a Violet, foi que eu, do Ocidente, encontrei o meu elemento affim numa raça que me era apparentemente opposta. Posso encontrar noutras creaturas condições de maior belleza, á face da Arte. Mas o meu defeito de superior faz que o meu procedimento seja cego em materia de sensibilidade. Ha em mim uma força cujo motivo mal sinto no vago da consciencia, e que é cega e me cega, que escapa á minha reflexão e não me consulta, caminha, não pede, exige.