Appareceu o mordomo.
—Vae mandar preparar a carruagem para ir a S. Carlos.
O creado sahiu a cumprir as ordens, e meia hora depois Nuno entrava no Theatro.
A exposição abria por um grupo de intenção inferior e execução horrivel. Denunciava um motivo pagão que o auctor não havia comprehendido.
Seguiam-se outras obras detestaveis.
De subito, foi Nuno surprehendido por duas figuras, que diziam no suppedaneo—Ganymedes servindo Jupiter.
Curiosas figuras! Jupiter era uma creação impossivel, desproporcionado, numa atitude artificialissima. Pelo contrario, Ganymedes era um marmore a resumar candura. A sua atitude, offerecendo a taça do nectar, as curvas delicadas do corpo, as minucias, como o desenvolvimento geral do busto e membros, confusos numa indecisão de sexo—tudo era de molde a devassar o artista que tinha concebido e executado tão extremada obra.
Mas poderia aquelle trabalho ser do mesmo auctor do Jupiter, e do destacamento de estatuetas que tinha visto? Foi andando. Por entre a collecção de obras inferiores deparou, a breve trecho, com dois trabalhos que não desmentiam o Ganymedes,—o Vagabundo e a Figura errada.
O Vagabundo, notavel de formas e expressão de alheamento, era um pequeno bronze de meio metro, harmonico, e que ajustava, absolutamente, ao dizer da peanha.
A Figura errada era o mais notavel dos trabalhos apresentados. Jehovah, pensativo, encostando a cabeça á mão esquerda e tendo na direita uns restos de barro, contemplava, indeciso e descontente, a figura que acabára de fazer. Esta figura era a expressão suprema duma alma que conseguira emprestar ao bronze todo o valor, realizando uma alta intenção.