O olhar, até ahi fixo em Nevogilde em expressões suaves duma galantaria senhoril, volveu-se rapido numa espectração selvatica, vazando em tonalidades extranhas sentimentos de tal melancholia e dor que mal se comportavam nos seus olhos de verdete, normalmente de esmeralda desbotada.

E Nuno, educado e tolerante:

—Afinal as desegualdades são naturaes nos artistas. A Arte tem os seus caprichos, as suas horas.

—Não é isso, replicou Ruy, em voz sumida. Perdôe-me V. Ex.ª a confissão que vou fazer-lhe e que só a um grande artista póde fazer-se.

A razão de taes desegualdades prende á minha maneira de ser. Vejo-me na Arte como num espelho. Melhor do que num espelho, pois me vejo intimamente.

Eu pertenço a uma raça que vive odiada e odiando.

Exprimo o povo,—o bastardo duma fidalguia heroica e devassa, que nem talentos, nem sangue pode medir. Sou o acaso, a torrente vermelha do Destino, com uns laivos anilados de sangue nobre...

Degenerei em Arte, a feição bella do Odio.

Veja que nem tenho appellidos. O meu nome é Ruy Augusto.

Sou rude convivendo.