Como vejo com horror ou indifferença as creaturas, não tenho modelos que me impressionem. Toda a obra tem um fundo de photographia. Mas a minha objectiva recebe mal as imagens. A sua qualidade deforma, sobretudo, as que geralmente passam por preciosas. E se algumas affinidades mostra é pelas mais humildes: aproximação de raça.
Depois, a alma soffre com os esforços da vontade. Não sente quem quer. Eu desço de olhos fechados a escada que vae dar ao incerto. Isto na vida, assim tambem na Arte. Sigo o temperamento. A paisagem, não me apparece turvada com a figura humana. É a belleza que não magôa. Amo, quero dizer, sinto a paisagem. V. Ex.ª, provavelmente, não sabe, pois que me não conhece, como sou indicado nos meios que frequento?
Chamam-me o Vagabundo. Creio justissima a etiqueta.
Fechado em Lisboa, onde trabalho ao acaso, quasi sem recursos, realizo, de facto, essa figura extranha, que cansada de caminhar por entre paredes, desvaira na paisagem reminiscencias e nostalgias dos descampados da sua terra, que é a terra da sua raça.
Ahi tem V. Ex.ª, concluiu, a razão porque entre uma feira de estatuas encontrou três boas e porque na pintura o meu processo é mais harmonico e o reputo supremo como documento dos meus talentos.
—Muito curiosa a informação, disse Nuno.
E, de repente, fixando Ruy, a sorrir:
—Sabe que conheço o seu modelo preferido?
Ruy ruborizou-se, commentando, enleado:
—Veja V. Ex.ª que, a despeito do cuidado que ponho em disfarçá-lo, o talento de sentir-me tutela-me absolutamente; não tenho meio de o esconder, de me esconder.