Em volta de Peregrina, mexeu-se Lisboa. Appareceram os que desejavam folgar na casa do Alecrim, como pertencendo á sua parentela, e havia os recem-vindos das letras, que thuribulavam a Artista na presença e andavam pela cidade contando as extravagancias que derivavam da sua conversa livre.

Ella, conformada pelos novos amores, mal dava pelo cisco que remoinhava nos seus salões.

E, aos certames do sabbado, acquiescia, benevola, dispensando attenções e espirito. Entretinha-a brandamente aquelle gaudiar de gente que ia ali explorar-lhe o luxo e destinava a prender a futilidade da Salomé. Entretanto, para si preferia outros dias, aquelles em que tratava á puridade os intimos, que eram os da casa, Nuno de Villar e Ruy.

Nuno de Villar procurou-a, para agradecer a Nova Sapho, e offerecer o trabalho de Ruy; e ficou, desde logo, um amigo da casa, a quem Peregrina tratava com distincção e affecto.

Ruy apparecia esquivo, cobrindo o orgulho de humildades.

Peregrina tratava-o por tu; gabava-lhe o talento; tomava-o, carinhosamente, por uma creança que era preciso amimar; ria dos seus enleios, a ver se conseguia dar-lhe á alma selvatica tranquillidade e estados mais felizes.

Não havia meio.

Era, como frisava Nuno, o genio do povo, o Principe da Plebe, irreconciliavel com outras camadas.

Frequentava os meios aristocraticos, por curiosidade. A Arte dava-lhe admissão nos salões. Mas trocar affectos com outras raças, não podia. A sua obra era a concepção do homem que conversa de perto a natureza e a exterioriza, sonhando alto.

Elle sonhava em tela e bronze. Era poeta, pintando á sua maneira. Os pastores da sua provincia, vagabundeavam com os gados com os quaes trocavam expressões de olhar. Mas estas expressões davam-nas entre si, misturando, desvairando a alma, na alma livre dos campos.