*Magdalena*, fallando ao bastidor. Vai, ouves, Miranda? Vai e deixa-te lá estar até veres chegar o bergantim; e quando desimbarcarem, vem-me dizer para eu ficar descançada. (Vem para a scena) Não ha vento, e o dia está lindo. Ao menos não tenho sustos com a viagem. Mas a volta… quem sabe? o tempo muda tam depressa…

*Jorge*. Não, hoje não tem perigo.

*Magdalena*. Hoje… hoje! Pois hoje é o dia da minha vida que mais tenho receado… que ainda temo que não acabe sem muito grande desgraça… É um dia fatal para mim: faz hoje annos que… que casei a primeira vez—faz annos que se perdeu elrei D. Sebastião—e faz annos tambem que… vi pela primeira vez a Manuel de Sousa.

*Jorge*. Pois contaes essa entre as infelicidades da vossa vida?

*Magdalena*. Conto. Este amor—que hoje está sanctificado e bemditto no ceu, porque Manuel de Sousa é meu marido—começou com um crime, porque eu amei-o assim que o vi… e quando o vi—hoje, hoje… foi em tal dia como hoje!—D. João de Portugal ainda era vivo. O peccado estava-me no coração; a bôcca não o disse… os olhos não sei o que fizeram: mas dentro d'alma eu ja não tinha outra imagem senão a do amante… ja não guardava a meu marido, a meu bom… a meu generoso marido… senão a grosseira fidelidade que uma mulher bem nascida quasi que mais deve a si do que ao espôso. Permittiu Deus… quem sabe se para me tentar?… que n'aquella funesta batalha de Alcacer, entre tantos, ficásse tambem D. João…

SCENA XI

MAGDALENA, JORGE, MIRANDA

*Miranda*, appressado. Senhora… minha senhora!

*Magdalena*, sobresaltada. Quem vos chamou, que quereis?—Ah! es tu,
Miranda. Como assim! ja chegaram?… Não póde ser.

*Miranda*. Não, minha senhora: ainda agora irão passando o pontal. Mas não é isso…