Tu não ignoras ja hoje o porque fugi da casa materna: sabía-a manchada de um grande peccado, e imaginei-a polluida de um enorme crime.

Esse homem que é meu pae, não o podia ver; hoje que sei o que me elle é… Deus me perdoe, que ainda o posso ver menos!

Minha avó, julguei-a cumplice no crime; ella so o era no peccado. Perdoe-lhe Deus; e bem póde e bem deve, ja que a fez tam fraca. Minha pobre mãe succumbiu por sua culpa, por sua irremissivel complacencia…

Deus póde e deve, repitto… mas eu, como lhe heide perdoar eu este rubor que sinto nas faces ao nomear minha mãe?

Tem padecido e soffrido muito… coitada! A sua penitencia é um martyrio, a sua velhice uma longa paixão, e esse homem que a perdeu um verdugo sem piedade. Mas tudo isso é com Deus, não é commigo.

Eu sou filho; minha mãe morreu sem perdoar—não posso perdoar eu.

E quem me hade perdoar a mim? Ninguem, nem quero.

Não serás tu, minha irman; não, que não deves. Porque eu amei-te com um coração que ja não era meu; acceitei o teu amor sem o merecer, sem o podêr possuir, trahi quando te amava, menti quando t'o disse, menti-te a ti, menti-me a mim, e não guardei verdade a ninguem.

Mas espera, ouve; deixa-me ver se posso atar o fio d'esta minha incrivel historia—incrivel para ti, bem simples para quem conheça o coração do homem.

Sahi de Portugal, e posso dizer que não tinha amado ainda. Inclinações de criança, galanteios de sociedade, ligações que nasceram da vaidade, ou que so os sentidos alimentam, não merecem o nome de amor.