Com que havemos nós agora de matar o barão?

Porque este mundo e a sua historia é a historia do 'castello do Chucherumello'. Aqui está o cão que mordeu no gato, que matou o rato, que roeu a corda etc. etc.: vai sempre assim seguindo.

Mas o frade não nos comprehendeu a nós, por isso morreu, e nós não comprehendemos o frade, por isso fizemos os barões de que havemos de morrer.

São a molestia d'este seculo; são elles, não os jesuitas, a cholera-morbus da sociedade actual, os barões. O nosso amigo Eugenio Sue errou de meio a meio no 'Judeu errante' que precisa refeito.

Ora o frade foi quem errou primeiro em nos não comprehender, a nós, ao nosso seculo, ás nossas inspirações e aspirações: com o que falsificou a sua posição, isolou-se da vida social, fez da sua morte uma necessidade, uma coisa infallivel e sem remedio. Assustou-se com a liberdade que era sua amiga, mas que o havia de reformar, e uniu-se ao despotismo que o não amava senão relaxado e vicioso, porque de outro modo lhe não servia nem o servia.

Nós tambem errámos em não intender o desculpavel êrro do frade, em lhe não dar outra direcção social; e evitar assim os barões, que é muito mais damninho bicho e mais roedor.

Porque, desinganem-se, o mundo sempre assim foi e hade ser. Por mais bellas theorias que se façam, por mais perfeitas constituições com que se comece, o status in statu forma-se logo: ou com frades ou com barões ou com pedreiros livres se vai pouco a pouco organizando uma influencia distincta, quando não contraria, ás influencias manifestas e apparentes do grande corpo social. Esta é a opposição natural do Progresso, o qual tem a sua opposição como todas as coisas sublunares e superlunares; ésta corrige saudavelmente, ás vezes, e modera sua velocidade, outras, a impece com demazia e abuso: mas emfim é uma necessidade.

Ora eu, que sou ministerial do Progresso, antes queria a opposição dos frades que a dos barões. O caso estava em a saber conter e approveitar.

O Progresso e a liberdade perdeu, não ganhou.

Quando me lembra tudo isto, quando vejo os conventos em ruinas, os egressos a pedir esmola e os barões de berlinda, tenho saudades dos frades—não dos frades que foram, mas dos frades que podiam ser.