—'Pois que succedeu, padre? Não me tenha n'esta horrivel suspensão.
Diga: onde está elle? Alguma desgraça grande lhe aconteceu, oh meu
Deus!..
—'E que me importa a mim o que aconteceu ou podia acontecer a mais um de tantos perdidos? Encherá a sua medida, irá após dos outros… caminha nas trevas com elles, e como elles, so hade parar no abysmo.'
A éstas derradeiras palavras do frade asperamente pronunciadas e em tom de indifferença e desprêzo, seguiu-se aquelle silencio comprimido, aquella pausa de toda a conversação grave e íntima em que os pensamentos são tantos que se atropellam e não acham sahida na voz.
Fr. Diniz mentia… na dureza d'aquellas expressões mentia ao seu coração—não mentia ao seu espirito. Como o caustico se applica á epiderme para deslocar a inflammação interior, elle roçava o peito com as asperidões de sua doutrina e de seus principios rigidos para amortecer dentro a viva dor d'alma que o consummia.
O frade estava por fóra, o homem por dentro.
O observador vulgar não via senão o burel e a corda que amortalhavam e cadaver. O que attentasse bem n'aquelles olhos, o que reparasse bem nas inflexões d'aquella voz, diria: 'Frade, tu mentes; mentes sem saberes que mentes: es sincero na tua fe, na tua austeridade, na tua abnegação; mas o teu sacrificio é como o de Abraham na montanha, e Deus sabe que tu não tens fôrça para o cumprir.'
Não o percebeu assim a pobre velha aquem os rigores de Fr. Diniz faziam tremer, e que para toda a affeição, para todo o sentimento humano julgava morto o coração do cenobita.
Ella que no silencio de suas noites sempre veladas, na perpétua escuridão de seus dias sempre tristes luctava ha tanto tempo, luctava debalde para desprender das affeições do mundo, aquelle seu pobre coração que queria immollar ao Senhor, ella via com sancta inveja e admiração as sobrehumanas fôrças que imaginava no frade; e desanimada de o podêr seguir n'essas alturas da perfeição evangelica, recahia, mais desalentada e mais miseravel que nunca, em toda a sua fraqueza de mulher e de mãe.
Oh! não sabe o que é tormento, o que é inferno n'este mundo, o que não soffreu destas angústias!
Mas permitte Deus que as padeça quem não tem grandes culpas, grandes e irreparaveis erros que expiar n'este mundo?