Nos meus relatorios trimestraes, que o Boletim das Bibliothecas e Archivos Nacionaes costuma sempre publicar, tenho eu frequentemente instado por que nos sejam cedidos os aposentos occupados pelas repartições do Governo Civil, transferindo-se essas para outro local,—e no mesmo sentido representou depois a Academia Real das Sciencias de Lisboa; infelizmente, porêm, similhantes instancias ainda até hoje não obtiveram resultado algum.

Com a falta do espaço coincide a pobreza do mobiliario, e não sómente pobreza, mas impropriedade. As estantes que a Bibliotheca Nacional possue acham-se longe, muito longe, de corresponder ás condições exigiveis para acondicionamento de especies raras e preciosas, accrescendo a triste circumstancia de não ter a Bibliotheca, em sua pequenissima dotação, recursos pecuniarios para a conveniente reforma de taes estantes.

O mesmo direi com respeito á verba decretada para compra de livros, assiguatura de revistas extrangeiras, e despeza indeclinavel de incadernações: é escassissima, e deficientissima a quantia destinada para taes incargos.

Escasso e deficiente é, não menos, o quadro dos funccionarios,—resultando d'esse facto que ainda estão apenas em projecto (projecto por ora platonico!) alguns dos mais indispensaveis Catalogos (v. g. um Catalogo alphabetico geral por nomes de auctores; um Catalogo por tilulos de obras; Catalogos methodicos das diversas especialidades; e um Catalogo-Diccionario por especificação singular de materias, como actualmente se vai usando com muito proveito nalgumas bibliothecas dos Estados Unidos da America).

Querem estas deficiencias significar pouco interêsse de quem na Bibliotheca Nacional tem superintendido? por fórma nenhuma. Significam ellas apenas a ausencia dos indispensaveis recursos.

Do impenho que altos funccionarios teem mostrado pelo ingrandecimento da Bibliotheca, foram exemplos frisantes a personalidade distinctissima de José Feliciano de Castilho (digno continuador de Antonio Ribeiro dos Santos), a actividade energica de Silva Tullio (que frequentes vezes desimpenhou interinamente as funcções de Bibliothecario-Mór), e o incansavel zelo do erudito Director a quem succedi em 1902 na gerencia da Bibliotheca (o Sr. Gabriel Pereira, que hoje exerce as funcções de Inspector das Bibliothecas e Archivos Nacionaes).

Em conclusão do que deixo laconicamente expendido (e muito haveria que particularizar sobre o assumpto), a Academia das Sciencias de Portugal, que sobremaneira me distinguiu constituindo-me seu delegado e seu interprete perante o Congresso Nacional, emitte os seguintes votos:

1.º—Que o Governo de Sua Majestade Fidelissima resolva proceder com a maxima brevidade á construcçao de um edificio especial, destinado exclusivamente á Bibliotheca Nacional de Lisboa, edificio por todas as faces completamente isolado, e absolutamente disposto em harmonia com as prescripções que para taes institutos determina a hygiene,—hygiene em relação aos livros e mais especies congeneres, hygiene em relação aos leitores, e hygiene em relação aos funccionarios;

2.º—Que o mesmo Governo proceda urgentemente á indispensavel ampliação dos aposentos que actualmente usufrue a Bibliotheca Nacional, para que esta, provisoriamente (emquanto se lhe não constróe definitivo edificio), possa bem accommodar as suas especies;

3.º—Que á Bibliotheca sejam fornecidos os meios pecuniarios para adquirir o mobiliario conveniente á boa arrumação e conservação das especies na Bibliotheca arrecadadas;