E Camões recitava! Em frente delle
A Princeza Maria, em fundo pasmo
Escutava vibrante de enthusiasmo
Versos cheios de amor, ciume e fel.
A côrte envolta recolhida e attenta
Ouvia esses sonetos delicados,
Onde a Paixão brilhava violenta
E a alma se partia em mil bocados.
E Camões recitava! Dos seus versos,
Com payzagens e largos ceos diversos,
Evolava-se o aroma da violeta...
E entre o grupo dos pagens e das damas
Sanguineamente como duas chammas,
Dominavam os olhos do poeta.
[a]NATHERCIA]
(a João de Deus)
Era em seus olhos duma luz magoada
Que elle sentia palpitar a vida,
Nathercia! a virgem branca e dolorida,
A alma da sua alma, a bem-amada!
Era em seus labios de escarlate vivo,
Efflorescentes de caricia e lava,
Que o coração do poeta se abysmava
Como num banho de perfume activo.
Foi assim que elle a amou lyricamente,
Ora em sonetos de paixão fremente
E eclogas cheias de saudade triste;
E assim lhe disse o derradeiro adeus,
Ao vel-a erguer-se aos luminosos céos:
--Alma minha gentil que te partiste.