Rasgando as ondas cruas, braço a braço
Com mil perigos e crueis tormentos;
Ralado de desgosto e de cançaço
Á chuva! á neve! aos vendavaes! e aos ventos!
Em frente aos soes que estoiram violentos,
Arremessando ondas de luz ao espaço;
Horisontes em braza! céos cinzentos!
--Nada receia aquelle peito d'aço!
E do rio Me-Khong as fundas aguas,
Ouvindo ao longe as soluçantes magoas
D'um povo illustre na historia humana;
A manso e manso, afrouxam a corrente,
Para que elle podesse épicamente
Cantar a gente illustre luzitana!
[O JAU]
(a Xavier Pinheiro)
Emquanto o povo, em bando, escalavrado e roto,
Cantava pela rua os psalmos da Agonia
E a nação moribunda era um profundo esgoto,
E a Historia se tornou em trecho d'elegia,
A patria cruelmente arruinada e exangue,
Sem familia, sem lar, sem amigos, sem pão,
No horisonte sómente a lama, o luto e o sangue,
Em toda a parte a raiva e a desesperação;
O luminoso poeta, a alma aventureira,
Que atravessou cantando uma existencia inteira,
A luctar pelo bem e a destruir o mau:
Achou na hora final, em vez de coroa etherea,
Num leito de hospital a enxerga da miseria
E por unico amigo um pobre negro:--o Jau.