[OS LUZIADAS]
(a Queiroz Velloso)
Epopeia de luz! os seus versos vermelhos
Como agudos punhaes, rubros ao sol da gloria,
São as Taboas da Lei, os nossos Evangelhos
E o poema triumphal de toda a nossa historia.
Por isso hão-de passar as eras sobre as eras,
Os seculos sem fim num desfillar escuro
E esse livro será a luz das primaveras,
Que nos indicará as praias do futuro.
E num aureo fulgor de chispas diamantinas,
Centos d'annos depois ainda essa epopeia
Em nós acordará a mais vibrante ideia.
E se o povo cahir exhausto entre ruinas,
Ó Luziadas! ó Bíblia aberta par em par,
Os nossos corações farás resuscitar.
[NO TRICENTENARIO DE CAMÕES]
(a Theophilo Braga)
Se aqui podesse vir Camões, nestes instantes,
Da campa onde repousa ha já tresentos annos,
Se aquella rude mão que fulminou tyranos
E sustentou crueis batalhas de gigantes,
Podesse ainda agitar em crispações vibrantes
O velho Portugal de heroicos puritanos;
E visse como o altivo estandarte das quinas
Tremula esfarrapado ao riso do estrangeiro,
As terras de alem-mar vendidas a dinheiro,
A patria toda em lama, em trevas, em ruinas,
As grandes tradicções no fundo das sentinas
E o soluço final d'um povo aventureiro;