—Tenho pensado, minha senhora. Eu nunca perdi a esperança de tornar a vêr Pero da Covilhan; agora, porém, depois da sua carta, ainda que elle voltasse já não podia ser sua mulher. Serei esposa do Senhor.
—Não póde haver união mais santa—retorquiu com jubilo a rainha—; mas sentir-te-has tu bem forte para a contrahir?...
—Se sinto!... Creia voss'alteza, que não é filho de um desespero o meu proposito; anima-me,[{237}] pelo contrario, a esperança, de que, servindo melhor a Deus na clausura, mais util poderei ser a Pero da Covilhan, orando por elle, e mais facilmente será perdoada a minha fraqueza de o não esquecer... A dôr é o mais seguro laço, que prende dois corações...
—Minha boa Thereza!... Cada vez considero mais digno da minha estima o teu coração de ouro!...
Maria Thereza cahiu de joelhos aos pés da rainha, e beijou-lhe as mãos, regando-lh'as de lagrimas. D. Leonor deixou resvalar por sobre a formosa cabeça da sua predilecta, as que lhe borbulharam dos olhos...
Eram duas almas diamantinas, que se confundiam em um crysol, formado do mesmo affecto finissimo.
Fôra a rainha D. Leonor encarregada do governo do reino, por carta patente de 24 de março de 1498, durante a ausencia do rei D. Manoel, que passára com sua mulher a Castella, a fim de serem jurados herdeiros d'esta monarchia; e logo, a 15 de agosto do mesmo anno, a piedosa regente instituiu a Misericordia de Lisboa. Não satisfeita com erigir esse monumento, que por si só bastaria para immortalisa-la, é infatigavel no caminho do bem, alumiada pelos esplendores da fé, e profundamente inspirada nos estremecimentos de amor, com que a sublime virtude da caridade commovia a sua alma a trasbordar de candura.[{238}]
Creou albergarias em Obidos e Torres-Vedras, fundou o convento da Annunciada em Lisboa, e na mesma cidade o hospital de Sant'Anna, sobrando-lhe ainda tempo para dar protecção ás lettras e ás artes, pois á sua munificencia indefessa se deviam monumentos preciosos da nossa typographia, que tentava então os seus primeiros ensaios em Portugal.
Mas de todas as suas instituições religiosas a mais querida e por isso mais velada pela fundadora, foi o mosteiro da Madre de Deus, que D. Leonor mandou edificar em Xabregas, e que tantas preciosidades artisticas possuia.
N'elle professou Maria Thereza, preferindo aos mimos e regalos da côrte as asperezas da vida monastica, em ordem tão apertada, como aquella a que se votou.