SCENA V

OS MESMOS E ELECTRA

Electra

Pois sim, sim... rica, minha riquinha! mais um beijo... Que doida que és! que doida que sou! mas entendemo-nos ambas. (Apparece pela esquerda com uma grande e rica boneca, que beija e que embala. Detem-se envergonhada)

Evarista

Que vem a ser isto, rapariga?

Marquez

Não lhe ralhe.

Electra

Mademoiselle Lulu e eu damos á lingoa, contamo-nos coisas.

Urbano

(ao Marquez) Anda desatinada hoje.

Electra

(afastando-se, diz segredinhos á boneca. Os outros olham) Que linda que és, Lulu! Mas elle, ainda mais lindo que tu. Que feliz seria o meu amor com elle e comtigo!

Marquez

Sempre folgazã, pelo que vejo...

Evarista

Pelo contrario: desde hontem n’uma tristeza que nos dá cuidado.

Marquez

Tristeza? idealidade antes.

Evarista

E, agora, está vendo...

Marquez

(carinhoso, dirigindo-se para ella) Rica menina!

Electra

(approximando a cara da boneca da do marquez) Vamos, Mademoiselle, não se me faça môna: dê um beijinho a este senhor. (Antes que o marquez beije a boneca dá-lhe um leve carolo com a cabeça de Lulu)

Marquez

A Lulu não beija: a Lulu marra. (Acariciando o queixinho de Electra) Por isso gósto mais da sua amiguinha do que d’ella.

Electra

De miôlo póde crêr que tanto tem uma como outra.

Urbano

Mas que conversas tu com a boneca?

Electra

Desafógo com ella, conto-lhe as minhas penas.

Evarista

Penas, tu?

Electra

Penas eu, sim, pois quê?... E quando nos vê muito caladas ambas é porque nos estão lembrando as nossas coisas passadas...

Marquez

Ah! se a interessa o passado já é um signal de que pensa pela sua cabecinha.

Evarista

E que coisas passadas são essas que dizes?

Electra

Digo do tempo em que nasci. (Com gravidade) O dia em que eu vim ao mundo foi um dia muito triste, pois não foi? Lembra-se aqui alguem de como foi esse dia?

Evarista

Filha, que tontices que dizes! E não tens vergonha de que o snr. Marquez te veja tão adoidada?

Electra

Creia, tia, que não ha doidos tão doidos, nem creanças tão creanças, que não tenham sua razão para dizer o que dizem e para fazer o que fazem.

Marquez

Muito bem pensado.

Evarista

Qual é então a tua razão para esses brinquedos tão fóra da tua edade?

Electra

(olhando para o marquez, que sorri ao seu lado) Isso não posso contar agora.

Marquez

Quer dizer que me retire.

Evarista

Electra!

Marquez

Eu ia já despedir-me... com bem pena de que as minhas occupações me privem de convivencia tão interessante. Adeus, senhorita; volto ás cinco para a levar commigo.

Electra

A mim!

Evarista

Sim; vamos á inauguração das Escravas.

Electra

E eu tambem?

Evarista

Podes-te ir vestindo.

Electra

(assustada) Ha de estar muita gente... A gente mette-me medo. Gósto mais de ficar só.

Marquez

Estaremos em familia. E com isto me despégo.

Evarista

Até logo, Marquez.

Marquez

(a Electra) Menina, ás cinco; aprendámos a ser pontuaes. (Sae pelo fundo com Urbano)