SCENA VI

EVARISTA E ELECTRA

Evarista

Explicarás agora a extranha maluquice em que andas.

Electra

Eu lhe digo, tia: tenho uma dúvida... como direi?... um problema...

Evarista

Problemas, tu!

Electra

Exactamente, no plural, problemas... porque é de mais d’um que se trata.

Evarista

Valha-te Nossa Senhora!

Electra

E quero vêr se m’os resolve...

Evarista

Quem?

Electra

Uma pessôa que já não vive.

Evarista

Que dizes?

Electra

Minha mãe. Não se afflija... Minha mãe pode-me dizer o que eu pretendo... e aconselhar-me. A tia não acredita que as pessôas do outro mundo podem vir a este? (Gesto de incredulidade de Evarista) Não acredita. Acredito eu. Acredito porque o tenho visto. Eu tenho visto minha mãe...

Evarista

Virgem Maria! como tens essa cabeça!

Electra

... Quando era muito pequenina, assim, d’este tamanho...

Evarista

Nas Ursulinas de Bayona?

Electra

Sim... Minha mãe apparecia-me.

Evarista

Em sonhos, naturalmente.

Electra

Não, não: estando eu acordada, tão bem acordada como estou agora. (Colloca a boneca n’uma cadeira)

Evarista

Pensa no que dizes, Electra...

Electra

Quando eu estava só, sósinha, triste ou doente; quando alguem me lastimava dando-me a perceber a desairosa situação que eu tinha no mundo, a minha mãe vinha, e consolava-me. Primeiro via-a imperfeitamente, confusa, como vaporosa, a parecer diluir-se nas coisas distantes, nas coisas proximas. Adeantava-se, n’uma claridade que tremeluzia... Depois, não bulia mais; era uma fórma quieta, uma serena imagem triste... E eu não podia então duvidar de que a tinha ali... Era minha mãe... Das primeiras vezes via-a em traje elegante de grande dama... Um dia, por fim, appareceu-me de habito e escapulario de monja. O seu rosto envolvido nas toucas brancas, e o seu corpo coberto pela estamenha pendente tinham uma magestade de belleza que não póde imaginar quem a não viu.

Evarista

Tu deliras, minha pobre filha!

Electra

Junto de mim abria os braços como se quizesse enlaçar-me. Falava-me n’uma voz dôce, mas longinqua e recondita... não sei como lh’o explique... Eu perguntava-lhe coisas, e ella respondia-me... (maior incredulidade de Evarista) A tia não acredita?

Evarista

Vae dizendo.

Electra

Nas Ursulinas tinha uma bella boneca, a que eu chamava tambem Lulu... Veja a tia que mysterio este!... Sempre que eu andava pela horta, ao cahir da tarde, só, levando ao colo a minha boneca—tão melancolica eu como ella—olhando muito para o ceu, era certa, segura, infallivel, a visão de minha mãe... primeiro entre as arvores, como enformada no ôco das folhagens; depois, desenhando-se de luz, e caminhando para mim, vagarosamente, por entre os troncos escuros...

Evarista

E em mais crescida, quando vivias em Hendaya... tambem?...

Electra

Nos primeiros tempos não... Então já eu brincava com bonecas vivas: os dois pequerruchinhos da minha prima Rosalia, menina e menino, que nunca se separavam de mim, e me adoravam, como eu a elles. De noite, na solidão do nosso quarto, com os meninos dormidinhos, como elles aqui... e eu aqui (indica o logar dos dois leitos parallelos) por entre as duas caminhas brancas a minha mãe passava, meiga, silenciosa, aeria, sem pisar o chão... E debruçava-se para mim...

Evarista

Cala-te, por Deus, que até me fazes medo... Mas depois que foste mais crescida... agora—digamos—acabaram essas visões...

Electra

Nunca mais as tive desde que deixei de viver com bonecas e com meninos. É por isso que eu trato de voltar á edade da innocencia, e de me fazer creança pequena outra vez, a vêr se, tornando a ser o que fui, voltará tambem minha mãe a vêr-me, como d’antes... Para que falemos, e me responda ao que lhe quero perguntar... e me dê conselho...

Evarista

E que dúvidas são as tuas, que assim precisas...

Electra

(pondo os olhos no chão) Dúvidas?... coisas que a gente não sabe, e quer saber.

Evarista

Tolice! Que tão grave caso vem a ser esse para que precises de consulta e de conselho?...

Electra

Cá uma coisa... (Vacilla, está quasi a dizêl-o)

Evarista

O quê? dize.

Electra

Uma coisa... (Com timidez infantil dando voltas á boneca e sem se atrever a revelar o seu segredo) Uma certa coisa...

Evarista

(severa e affectuosa) Ih! que intoleravel que estás, com tanta creancice! (Tira-lhe a boneca) Que estupida e ao mesmo tempo que atilada que tu és! Tão depressa te mostras um prodigio de intelligencia e de graça como parece que não passas de maluca... Andam ás bulhas com a tua alma cherubins e demonios. Temos que intervir para acabar com essa lucta e dar em Satanaz muitos açoites, ainda que algum te caia em ti e te dôa um poucochito... (Beija-a) Vamos! juizo. Precisas de te occupar n’alguma coisa, de distrahir essa cabeça... Não te esqueça de que é ás cinco a festa... Vae-te arranjar, anda...

Electra

Sim, tia.

Evarista

Faltam tres quartos.

Electra

Vou apromptar-me.

Evarista

E poucas brincadeiras... cuidado! (Sae pelo fundo levando a boneca pendida, suspensa por um braço)