Deo signal a trombeta Castelhana
Horrendo, fero, ingente, e temeroso:
Ouvio-o monte Artabro; e Guadiana
Atraz tornou as ondas de medroso:
Ouvio-o o Douro, e a terra Transtagana;
Correo ao mar o Tejo duvidoso;
E as mãis que o som terribil escuitáram,
Aos peitos os filhinhos apertáram.
Quantos rostos alli se vem sem côr,
Que ao coraçaõ acode o sangue amigo;
Que nos perigos grandes, o temor
He maior muitas vezes que o perigo:
E se o naõ he, parece-o; que o furor
De offender, ou vencer o douro imigo,
Faz naõ sentir que he perda grande, e rará,
Dos membros corporaes, da vida chara.
Começa-se a travar a incerta guerra;
De ambas partes se move a primeira ala;
Huus levam a defensão da propria terra,
Outros as esperanças de ganhala:
Logo o grande Pereira, em quem se encerra
Todo o valor, primeiro se assinala;
Derriba, e encontra, e a terra em fim semêa
Dos que a tanto desejam, sendo alhêa.
Já pelo espesso ar os estridentes
Farpoens, settas, e varios tiros vôam:
Debaixo dos pés duros dos ardentes
Cavallos, treme a terra, os valles sôam:
Espedaçam-se as lanças; e as frequentes
Quêdas co’as duras armas tudo atrôam:
Recrescem os imigos sobre a pouca
Gente do fero Nuno, que os apouca.
Cant. IV. 28. &c.
[156] Canto IV. Estancia 69, &c.
[157] Canto IV. est. 90, &c.
[158] The old man exclaims:—
Oh gloria de mandar! Oh vaã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos fama!
Oh fraudulento gusto, que se atiça
Co’ huma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho, e que justiça
Faces no peito vaõ que muito te ama!
Que mortes! Que perigos! Que tormentas!
Que crueldades nelles exprimentas!
Dura inquietaçaõ da alma, e da vida;
Fonte de desamparos, e adulterios;
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de Reinos, e de Imperios,
Chamam-te illustre, chamam-te subida,
Sendo digna de infames vituperios:
Chamam-te fama, e gloria soberana;
Nomes com quem se o povo nescio engana.
Cant. IV. 95.
[159] This passage is one of the most celebrated in the Lusiad. It commences with the following stanzas:—
Naõ acabava, quando huma figura
Se nos mostra no ar, robusta, e válida;
De disforme e grandissima estatura,
O rosto carregado, a barba esquálida:
Os olhos encovados, e a postura
Medonha, e má, e o cor terrena, e pálida,
Cheos de terra, e crespos os cabellos,
A boca negra, os dentes amarellos.
Taõ grande era de membros, que bem posso
Certificar-te, que este era o segundo
De Rhodes estranhissimo Colosso,
Que hum dos sete milagres foi do Mundo:
Co’hum tom de voz nos falla horrendo, e grosso,
Que pareceo sahir do mar profundo:
Arrepiam-se as carnes, e o cabello,
A mi, e a todos, só de ouvi-lo, e vello.