Ninguem ama sem querer,
Ninguem quer sem esperar,
O que ama, espera, et quer,
Poderà nunca alcançar,
Mas sempre ha de pertender.
Se a era lhe falta à planta,
Em cujo tronco se arrime,
Nem cresce, nem se alevanta,
Que em fim naõ tem força tanta,
Que se levante, et sublime.
E se a amor lhe faltàra
Esperança, que o sustente,
Na raiz propria se cura,
E inda naõ sey se brotàra,
Ou se afogára a semente.
De sorte que em qualquer peyto,
Sem esperança ou favor
De seu desejado objecto,
Naõ só falta Amor perfeyto,
Mas falta de todo Amor.
Reposta da pastora Dinarea à mesma pergunta.
Amor, que a proprio respeyto
Todo o dezejo offerece
Só por seu gosto, ou proveyto,
Naõ se chame amor perfeyto,
Antes perfeyto interesse.
Amor he somente amar,
Este he seu meyo, et seu fim,
E o que pretende alcançar,
Nem se ha de lembrar de sim,
Nem do que pode esperar.
O que he verdadeyro amante
Naõ se funda na esperança,
Só seu querer poem diante,
E se por ventura alcança,
Sem ventura he mais constante.
Quando n’alma huma bellesa
Mostra seu rayo invencivel,
E amor seu preço, et grandeza,
Naõ faz differente empreza
Entre facil, et impossivel.
E he ja cousa averiguada,
Que somente este rigor
Merece ante a cousa amada,
E o que quizer mais de amor,
Nem quer, nem mereceo nada.
[224] To these three competition songs a page or two must be devoted. Fanciful compositions of this kind, though now out of date, are curious; and ingenious simplicity in so elegant a form is seldom to be met with even in romantic literature.
Reposta de Riseo à tercera pergunta»
Que parentesco chegado
Tem amor com o ciume.
Amor como se presume
Ouve por certa affeyçaõ,
Hum filho da ocasiaõ,
A que chàmaraõ Ciume.
He igual ao pay, et mór,
Que amor com muyta grandeza,
Palreyro por natureza,
Que em fim he filho de Amor.
Vè muyto aonde quer que vay,
Naõ voa, antes he pezado,
E em qualquer parte tocado,
Tem o topete da mãy.
Vive de enganos que faz,
E anda nelles de contino,
E como Amor he menino,
Tambem o filho he rapaz.
Dà ao pay sempre mà vida,
E assim naõ me maravilho,
Que disconheçaõ por filho,
Porque Amor mesmo duvida.
Reposta de Egerio à mesma pergunta.
Estes irmaõs desiguaes,
Ambos de Venus nascèraõ,
E tiranos se fizeraõ
Do Imperio de seus pays.
Nasceo de Vulcano cego
O Ciume, et logo entaõ
Tomou o cargo este irmaõ,
A quem nunca deu socego.
E parecia acertado
Que hum filho que tal parece
Da fermosura nascesse,
E de hum pay desconfiado.
Ambos nascem juntamente,
E vivem fazendo dano,
Hum com redes de Vulcano,
Outro com seu fogo ardente.
Seguem differente fim,
E vivem sempre em perigo,
Cada hum do outro inimigo,
E acompanhaõ sempre assim.
Mostre por prova melhor,
Quem o contrario presume,
Se vio Amor sem ciume,
Ou ciume sem amor?
Reposta de Lereno à mesma pergunta.