Anda não tenhas medo, entra no restaurante.
A sala está repleta. A purpura brilhante
Dos desejos inflama os sonhos tentadores.
O champanhe sacode os craneos embriagados,
E os crimes sensuaes e os vicios delicados
Rompem n'um turbilhão de venenosas flôres.
O punch, illuminando as faces cadavericas,
Faz-nos imaginar as saturnaes chimericas
Que á noite deve haver na morgue de Paris,
Aonde as cortezãs, mais roxas que as violetas,
Ao luar cantarão as verdes cançonetas

Das podridões gentis.

Volteiam pelo ar os ditos picarescos,
Elasticos, febris, doidos, funambulescos,
Como gnomos de luz vestidos de histriões,
Dançando, tilintando os guisos argentinos,
Fazendo á luz do gaz tregeitos libertinos
Com o riso cruel das hallucinações.
Ceiemos. Manda vir as coisas que preferes;
E que nos vão buscar duas ou tres mulheres,

Que as ha perto d'aqui;

O mais, pede por boca, o meu divino mestre;
Mas escuta, olha lá, não peças mel silvestre,
Porque já se não usa e riem se de ti.
E agora é destampar a rubra fantasia!
Bebe, pragueja, ri, inventa, calumnia,
Anda! mostra que tens espirito, ladrão!
Não quero vêr chorar os olhos teus contrictos;
Sê canalha com graça, infame com bons ditos,

Vamos, semsaborão!

Conta-nos em voz alta historias bem galantes,

Segredos irritantes,
Vergonhas sensuaes,

Adulterios da moda, escandalos, miserias,
Tudo isto, já se vê, com optimas pilherias,

Bastante originaes.