Uma noite, tendo a familia Saavedra recolhido a casa, depois de passear na alameda da Praia, Soledad ficou por algum tempo á janella.

A noite estava calmosa, a casa era abafada, tinha apenas duas janellas. D. Enrique deitára-se, fôra para a cama lêr os jornaes hespanhoes que n’esse dia o correio lhe trouxera.

D. Estanislada andava, como sabemos, em reservada observação a respeito do sueco: se elle era um namorado timido, como suppunha, ella o alentaria com a sua audacia de abelha-mestra andaluza.

Deitado o marido, D. Estanislada abriu a outra janella da sala, a pretexto de tomar ar. Cada uma, mãe e filha, occupava sua janella. E ambas tinham o mesmo pensamento: vêr se o sueco, protegido pela noite, passaria por ali.

A menina Ricardina, por dentro da vidraça do seu rez-de-chaussée, esperava tambem o sueco, e sentia-se contrariada pela presença das hespanholas, que pareciam não ter somno n’aquella noite.

A principio suppôz que mãe e filha estivessem apenas tomando o fresco, mas deram onze e meia no relogio de S. Julião, deu meia noite, e ellas não sahiam da janella.

A meia noite era a hora marcada para a entrevista do sueco com a menina Ricardina. A sr.ª Magdalena dormia profundamente a essa hora. A filha levantava-se do leito, abria cautelosamente a janella, vinha esperar, no silencio da noite, o sueco. Mas n’aquella noite, vendo as hespanholas, ficára por dentro da vidraça, espreitando-as.

Á meia noite em ponto—a pontualidade em tudo é uma caracteristica das raças do norte—o sueco assomou á esquina da rua, que julgava deserta a essa hora, segundo o costume.

Viu porém gente nas duas janellas da casa de D. Enrique, e fechada a vidraça de Ricardina.

Ficou por sua vez contrariado, perplexo, sem saber se havia de retroceder ou de avançar. Coseu-se com a sombra do muro, parou, indeciso.