D. Estanislada, a quem não era facil enganar, viu a manobra do lenço da filha e, mal ella voltara costas, fez o mesmo, com mais algum descaramento: agitou o lenço e deixou-o cahir á rua. Depois fechou com estrondo a janella.
D. Enrique, que, tendo passado pela vista os jornaes, já dormitava, accordou ouvindo o barulho da vidraça; teve um estremecimento nervoso e regougou:
—Que broma!
Voltando-se para o outro lado, tornou a pegar no somno.
O sueco ainda esteve cerca de um quarto de hora alapardado no escuro, mas, vendo abrir-se a janella de Ricardina, sahiu da sombra, sem todavia perder de vista os dois lenços brancos, que estavam no chão.
Quando elle se approximava do rez-de-chaussé, sentiu abrir-se cautelosamente a porta da sr.ª Magdalena.
Um fremito de electricidade amorosa percorreu todo o seu corpo; n’aquella noite o amor triumpharia sem restricções, pensou elle.
Mas Ricardina atravessou rapidamente a rua, com um passinho de passaro, apanhou os dois lenços que estavam no chão debaixo das janellas das hespanholas, e correu para casa.
O sueco, sem saber a façanha gloriosa de Martim Moniz no castello de Lisboa, ia a imital-o por intuição, quiz atravessar-se na porta, para entrar, mas Ricardina empurrou-o com desabrimento, dizendo iracunda:
—Não! nunca!