Ás horas das Trindades, á noitinha,
Quando ha milagres e sublimes couzas
E caza o rouxinol com a andorinha…

Quando a alma das virgens religiozas,
Triste se envolve n'um burel de magoa
E os anjos noivam mail-as suas Rozas…

Quando o luar azula a espuma, a fragua,
E o céu sem fim, a abbobada estrellada,
Como que tem os olhos razos de agoa…

N'essa hora indeciza, augustiada,
Em que o universo está, meio ás escuras,
Que não se sabe se é antes a alvorada:

Eu pude ver, erguendo-se ás alturas,
Essa radioza lagryma de pranto
Que despedem, morrendo, as criaturas.

E ao vir da noite, livido de espanto,
Vi uma estrella a mais no azul do céu:
É que um poeta, um justo, um bom, um santo,

Ás horas do crepusculo… morreu!
O simples coração de Julieta
Dentro da alma clara de Romeu!

Uma criação de Deus, mas incompleta:
Aguia, encerrando um coração de pomba,
Cedro que dava folhas de violeta!

Ah, quando vejo alguma flor que tomba
Meu coração estorce-se de dor,
De Deus minha alma inconsolavel zomba!

Um lyrio branco, o seu primeiro amor,
Aos ventos, aos relampagos, ficou
N'este Valle de Lagrymas, Senhor!