Quem lhe dera a mortalha que levou
Toda coberta do cabello loiro
Da mystica menina que elle amou!
Vede-a, acolá, chorando o seu thesoiro,
Na janella que deita para o mar,
Soltas ao vento as suas tranças de oiro!
Ó Via-Lactea, ó Sete-Estrello, ó Luar,
Ó Lua, noiva da esverdeada fera,
Deixae do céu a vossa luz tombar!
Ó aves, que trazeis a primavera,
Para cobrir o solitario ninho,
Ide buscar á sua campa a hera!
Ó pombas de luar, pombas de linho,
Que ides tão alto, divagando errantes,
Quazi mortas, perdidas no caminho:
Do vento sobre as azas triumphantes
Prendei a aza e, assim, acompanhae
O scismador que vos cantava d'antes!
Elle precorre victoriozo, olhae!
Entre espumas de brancas andorinhas
O Novo-Mundo, e que ligeiro vae!
Dizem-lhe adeus da terra as criancinhas,
Co'as tranças a acenar, mandam-lhe abraços
E beijos com as pallidas mãozinhas…
Mas elle vae boiando nos espaços,
Sendo o seu corpo uma subtil galera
Com leves remos de marfim, seus braços…
Onde vae elle? a que ditoza esphera
Velhinha Morte a sua alma guia?…
Que vida immensa, lá no céu, o espera!