—Que diabos de porcos aquelles! São o vivo demonio. Ó Maria—chamava. Anda cá rapariga!

Do lado do quintal respondeu uma voz sadia, n’um tom malcreado e agudo:

—Que é, senhor?

—Aquelles porcos que rompem o lençol... Deixa lá Manuel... Vem cá p’ra cima que a rapariga arranjará isso. Com que então o teu Zé escreveu e dá bôas noticias!... Muito bem, muito bem...

—Aqui lh’a trago...—certificava com rosto satisfeito, apresentando uma carta de papel azul, pautado, muito fino, que lhe rangia entre os dedos. Trazia-a cuidadosamente dobrada, tendo rasgado unicamente a parte collada pela obreia vermelha e quadrangular. Mostrava com orgulho o talho da letra commercial do sobrescripto, os carimbos de tinta atijolada, os dois sellos azues, representando a dôce efigie do imperador, com a sua fina barba-toda. Depois, para que o ecclesiastico visse o que o seu Zé dizia, abriu melindrosamente a carta, e entregou-lha affirmando em seguida:

—Leia, senhor, leia que está-the mesmo um home. Falla com uma cabeça!...

E, ao pronunciar estas simples palavras, tinha lagrimas orgulhosas, por ter um filho que não merecia a Deus Nosso Senhor.

O Beiral disse-lhe:

—Confesso-t’o agora Manuel. Nunca pensei que fosse para lá fazer boas cousas. É bem certo o dictado: «Quem bom é, em toda a parte se salva.»