—É a melhor pinga que ha pelos arredores. O Bernardo queria-o vender lá para a villa, e já lhe davam dez moedas.
O regedor considerou:
—Foi bem tolo em o não beber. Se o levasse nas tripas, fazia melhor do que estar o poupal-o para quem cá fica...
Depois de escorripicharem as duas canecas, os jornaleiros continuaram a cavar com mais cautela, para não tocarem com as sacholas nos cadaveres, como os prevenira o cirurgião. A primeira cousa que se descubriu foi o chapéu do Bernardo, humedecido e barrento. Todos reconheceram que era esse mesmo chapéu, esbeiçado e já roto, que elle costumava usar. O José Pandega, affirmou com certa intimativa:
—Na cabeça d’elle é que vós o não tornaes a ver!
Todas as pessoas confirmaram esta opinião sensata. Era verdade! Na cabeça do defunto, que estava debaixo d’aquelle barro, elles nunca mais veriam aquelle chapéu esbeiçado e roto!
Pouco depois, com mais algumas enchadadas, appareceram os defuntos. A ultima camada de barro, foi tirada cuidadosamente com as mãos. Os dois cadaveres estavam de bruços, ambos inteiriçados, rigidos. Ao de Bernardo, que era mais pesado, metteram-lhe uma tábua por baixo do tronco e levantaram-n’o ao ar, ficando o corpo aprumado, severo, com um aspecto de phantasma! O cadaver do rapasito do gado, como no momento em que a barreira se esboroou estava agachado sobre os calcanhares, encontraram-no dobrado sobre si mesmo, com a cabeça debaixo do corpo e a cara encostada ao peito, quebrado pela espinha. Ambos estavam inteiramente desfigurados, por causa da camada de terra adherente, empastando-lhe os cabellos, tapando-lhe os olhos e a bôca. Todas as pessoas presentes vieram agrupar-se em volta das duas tábuas, sobre as quaes, os mortos, permaneciam deitados de costas. O Chico, para o conservarem bem estendido, tiveram de o atar pelo tronco e pelos pés ao seu esquife provisorio com uma corda; porque, em virtude da rigidez cadaverica, tendia a dobrar-se sobre o ventre. Ali, diante dos corpos exanimes, o juiz, o regedor e o cirurgião, fallaram em dar parte d’este acontecimento tragico, n’um officio, ao senhor administrador, affirmando-lhe que a culpa d’elles morrerem, tinha sido d’elles mesmos, que se tinham ido metter na bôca da morte. Depois concluiram, que o que era necessario fazer-se-lhe já, era amortalhal-os, para se proceder aos officios e enterral-os, quanto antes, para não principiarem a cheirar!... Depois d’isto, o Pandega, lembrou-se de tirar o barro dos rostos sujos, e para isso foi buscar uma pouca de palha de uma moreia proxima, e fel-o.
Porém, como depois d’esta grosseira limpeza reconheceu que os cadaveres tinham nodoas arrouxadas nas faces e na testa, affirmou peremptoriamente, com modo decisivo:
—Devem-se enterrar quanto antes... Ámanhã principiam elles a feder, que nem mil demonios! Não se ha de poder estar com o nariz ao pé!...
As mulheres presentes fizeram uma momice de enjoadas e, cuspinhando para o lado, disseram «cachicha». Os homens, que tinham desenterrado os mortos, preparavam-se para pegar ás tábuas, onde os tinham estendido, com o fim de os transportarem a casa, quando a Caetana, uma velha beata, lhes observou n’uma voz de um ligeiro timbre choroso: