—Alto ahi!... oh! rapaziada!

Os pequenos pararam, pousando no chão o feretro.

O coveiro principiou a abrir ali mesmo a sepultura. O som baço e profundo da enxada, batendo cadentemente na terra, dilatava-se, reproduzindo-se nos angulos da montanha.

No exercicio da sua triste profissão, o Coruja tinha, n’este momento unico, um aspecto maguado... Todo curvo sobre a cova que ía abrindo, com uma expressão facial de rigida tristeza, impunha-se austero, digno, respeitavel!...

As creanças, graves, silenciosas, olhando absorvidas para elle, obedeciam a um sentimento que não saberiam explicar!... Tomavam parte no sentimento do coveiro e, d’este modo, com a sensibilidade ingenua e infantil, acabavam a tonalidade dolorosa d’este quadro triste!

Em frente das montanhas imponentes e do amplo horisonte, a respiração era facil, regular, socegada. Todos sentiam a tranquillidade, o socego, a paz silenciosa dos logares ermos! O Coruja, para acabar o seu trabalho, desceu ao fundo da sepultura e principiou a cavar com esmero dos lados. Desejava que o corpo ficasse cuidadosamente ageitado, como n’um berço!... Por fim, disse aos seus companheiros n’uma voz natural:

—Chegae-me para cá esse caixão.

E tirando cuidadosamente os ramos de cima do corpo, sopezou a tábua, para a collocar no fundo com o cuidado e com o amor com que collocaria o corpo de uma creança morta! Um dos assistentes confessou com naturalidade:

—Parece... como os anjinhos.