Nos tempos subsequentes ainda viram, algumas vezes, o Coruja subir aos penedos sobranceiros á sepultura! Demorava-se ali horas, olhando para o largo horisonte, cantarolando sempre, como era seu costume nos momentos tristes! N’um dia em que o barbeiro Zé Maximo, com o seu ar importante de banalidade, lhe perguntou indiscretamente, sorrindo-se com modos de troça, «Ó Cruja, tu, diz que fizestes um grande enterro ao teu Coisa!», elle respondeu com azedume:
—É verdade, meu grandissimo jumento! Merecia-o melhor que tu.
O EMBARCADIÇO
O EMBARCADIÇO
Miguel Timão era um homem corpulento, de feições energicas e leaes. Em linhas pontilhadas, de um azul indelevel, tinha no braço direito um navio com o seu velame e no esquerdo um signo-samão. Partira da sua aldeia descalço, por uma crua manhã de geada, com toda a roupa n’uma pequena trouxa, enfiada n’um pau!... Seu pae, a este tempo, era um cego que vivia da caridade... Na aldeia não havia ganhos... Foi por isto que elle, na companhia de outros emigrantes, foi pelo mundo fóra, procurar fortuna... Ah! como a sua alma boa e generosa estremecia alegremente com a idéa consoladora de ganhar dinheiro para sua irmã Catharina, e para seu velho pae cego!...