Cerca de dous mezes são decorridos depois que Leoncio fôra ao Recife apprehender sua escrava. Leoncio e Malvina tinhão-se reconciliado, e vindos da côrte tinham chegado á fazenda na vespera. Alguns escravos, entre os quaes se acham Rosa e André, estão asseando o soalho, arranjando e espanando os moveis daquelle rico salão, testemunha impassivel dos mysterios da familia, de tantas scenas ora tocantes e enlevadoras, ora vergonhosas e sinistras, e que durante a ausencia de Malvina se conservára sempre fechado.
Qual é porém a sorte de Isaura e de Miguel, desde que deixárão Pernambuco? que destino deo Leoncio ou pretende dar áquella?... por que maneira se reconciliou com sua mulher?
Eis o que passamos a explicar ao leitor, antes de proseguirmos nesta narrativa.
Leoncio tendo trazido Isaura para sua fazenda, a conservára na mais completa e rigorosa reclusão. Não era isto só com o fim de castigal-a ou de cevar sua feroz vingança sobre a infeliz captiva. Sabia quanto era ardente e capaz de extremos, o amor que o jovem pernambucano concebera por Isaura; tinha ouvido as ultimas palavras que Alvaro lhe dirigira = confia em Deos, e em meo amor; eu não te abandonarei =.—Era uma ameaça, e Alvaro, rico e audacioso como era, dispunha de grandes meios para pôl-a em execução, quer por alguma violencia, quer por meio de astucias e insidias. Leoncio portanto não só encarcerava com todo o rigor a sua escrava, como tambem armou todos os seos escravos, que dahi em diante distrahidos quasi completamente dos trabalhos da lavoura, vivião em alerta dia e noite como soldados de guarnição a uma fortaleza.
Mas a alma ardente e feroz do joven fazendeiro não desistia nunca de seo louco amor, e nem perdia a esperança de vencer a isenção de Isaura.
E já não era só o amor ou a sensualidade, que o arrastava, era um capricho tyrannico, um desejo feroz e satanico de vingar-se della e do rival preferido. Queria gozal-a, fosse embora por um só dia, e depois de profanada e polluida, entregal-a desdenhosamente ao seo antagonista, dizendo-lhe:—Venha comprar a sua amante; agora estou disposto a vendel-a, e barato.
Encetou pois contra ella nova campanha de promessas, seducções e protestos, seguidos de ameaças, rigores e tyrannias. Leoncio só recuou diante das torturas e da violencia brutal, não por que lhe faltasse ferocidade para tanto, mas por que conhecendo a tempera heroica da virtude de Isaura, comprehendeo que com taes meios só conseguiria matal-a, e a morte de Isaura não satisfazia o seo sensualismo, e nem tão pouco a sua vingança. Portanto tratou de meditar novos planos, não só para recalcar debaixo dos pés o que elle chamava o orgulho da escrava, como de frustrar e escarnecer completamente as vistas generosas de Alvaro, tomando assim de ambos a mais cabal vingança.
Além de tudo, Leoncio via-se na absoluta necessidade de reconciliar-se com Malvina, não que o pundonor, a moral, e muito menos a affeição conjugal a isso o induzissem, mas por motivos de interesse, que em breve o leitor ficará sabendo. Com esse fim pois, Leoncio foi á côrte e procurou Malvina.
Além de todas as más qualidades que possuia, a mentira, a calumnia, o embuste, erão armas que manejava com a habilidade do mais refinado hypocrita. Mostrou-se envergonhado e arrependido do modo por que a havia tratado, e jurou apagar com o seo futuro comportamento até a lembrança de seos passados desvarios. Confessou com uma sinceridade e candura de anjo, que por algum tempo se deixára enlevar pelos attractivos de Isaura, mas que isso não passára de passageiro desvario, que nenhuma impressão lhe deixára na alma.
Além disso assacou mil aleives e calumnias por conta da pobre Isaura. Allegou que ella, como refinada loureira que era, empregára os mais subtis e ardilosos artificios para seduzil-o e provocal-o, no intuito de obter a liberdade em troco de seos favores. Inventou mil outras cousas, e por fim fez Malvina acreditar que Isaura fugira de casa seduzida por um galan, que ha muito tempo a requestava, sem que elles o soubessem; que fôra este, quem fornecêra ao pae della os meios de alforrial-a, e que não o podendo conseguir combinárão de mãos dadas e effectuárão o plano de rapto; que chegando ao Recife, um moço que tanto tinha de rico, como de extravagante e desmiolado, enamorando-se della a tomára a seo primeiro amante; que Isaura com seos artificios, dando-se por uma senhora livre o tinha enleado e illudido por tal forma, que o pobre moço estava a ponto de casar-se com ella, e mesmo depois de saber que era captiva não queria largal-a, e praticando mil escandalos e disparates estava disposto a tudo para alforrial-a. Fôra das mãos desse moço, que elle a fôra tomar no Recife.