Malvina, moça ingenua e credula, com um coração sempre propenso á ternura e ao perdão, deo pleno credito a tudo quanto aprouve a Leoncio inventar não só para justificar suas faltas passadas, como para predispor o comportamento que dahi em diante pretendia seguir.
Na qualidade de esposa offendida irritára-se outróra contra Isaura, quando surprehendêra seo marido dirigindo-lhe fallas amorosas; mas o seo rancor ia-se amainando, e se desvaneceria de todo, se Leoncio não viesse com falsas e aleivosas informações attribuir-lhe os mais torpes procedimentos. Malvina começou a sentir por Isaura desde esse momento, não odio, mas certo afastamento e desprezo, mesclado de compaixão, tal qual sentiria por outra qualquer escrava atrevida e mal comportada.
Era quanto bastava a Leoncio para associal-a ao plano de castigo e vingança, que projectava contra a desditosa escrava. Bem sabia, que Malvina com a sua alma branda e compassiva jámais consentiria em castigos crueis; o que meditava porém nada tinha de barbaro na apparencia, se bem que fosse o mais humilhante e doloroso flagicio imposto ao coração de uma mulher, que tinha consciencia de sua belleza, e da nobreza e elevação de seo espirito.
—E o que pretendes fazer de Isaura? perguntou Malvina.
—Dar-lhe um marido e carta de liberdade.
—E já achaste esse marido?
—Pois faltão maridos?... para achal-o não precisei sair de casa.
—Algum escravo, Leoncio?... oh!... isso não.
—E que tinha isso, uma vez que eu tambem forrasse o marido? era cré com cré, lé com lé. Bem me lembrei do André, que bebe os ares por ella; mas por isso mesmo não a quero dar áquelle maroto. Tenho para ella peça muito melhor.
—Quem Leoncio?