—E vae-se embora de certo ... oh!... é uma desgraça!

—Já vejo, que não é bom adivinhador. Isaura está resolvida a casar-se com o senhor.

—Que me diz, patrôa!... perdão, não posso acreditar. Vm.ce está zombando commigo.

—Digo-lhe a verdade; ahi está ella, que não me deixará mentir. Aprompte-se, senhor Belchior, e quanto antes, que ámanhã mesmo ha-de-se fazer o casamento aqui mesmo em casa.

—Oh! senhora minha! divindade da terra!—exclamou Belchior indo-se atirar aos pés de Malvina e procurando beijal-os,—deixe-me beijar esses péis....

—Levante-se dahi, senhor Belchior; não é a mim, é a Isaura que deve agradecer.

Belchior levanta-se e corre a prostrar-se aos pés de Isaura.

—Oh! princeza de meo coração!—exclamou elle atracando-se ás pernas da pobre escrava, que fraca como estava, quasi foi a terra com a força daquella furiosa e enthusiastica atracação. Era para fazer rebentar de riso, a quem não soubesse quanto havia de tragico e doloroso no fundo daquella impia e ignobil farça.

—Isaura!... não olhas para mim? aqui tens a teos péis este teo menor captivo Belchior!... olha para elle, para este teo adorador, que hoje é mais do que um principe ... dá cá essa mãosinha, deixa-me comel-a de beijos...

—Meo Deos! que farça hedionda obrigão-me a representar!—murmurou Isaura comsigo, e voltando a face abandonou a mão a Belchior, que collando a ella a boca no transporte do enthusiasmo, desatou a chorar como uma creança.