—Blasphemia!... quem sabe!... mas em fim dê um destino qualquer a essa rapariga, se não quer expellir-me para sempre de sua casa. Quanto a mim não a quero mais nem um momento em meo serviço; é bonita demais para mucama.
—O que lhe dizia eu, senhor Leoncio? acudio Henrique, que já cançado e envergonhado do papel de mudo guarda-costas, entendeu que devia intervir tambem na querella.—Está vendo?... eis-ahi o fructo que se colhe d’esses belos trastes de luxo, que quer por força ter em seo salão...
—Esses trastes não seriam tão perigosos, se não existissem vis mexeriqueiros, que não hesitam em perturbar o socego da casa dos outros para conseguir seos fins perversos...
—Alto lá, senhor!... para impedir, que o senhor não transportasse o seu traste de luxo do salão para a alcova, percebe?... o escandalo cedo ou tarde seria notorio, e nenhum dever tenho eu de ver de braços cruzados minha irmã indignamente ultrajada.
—Senhor Henrique! bradou Leoncio avançando para elle, hirto de cólera e com gesto ameaçador.
—Basta, senhores!—gritou Malvina interpondo-se aos dois mancebos.—Toda a disputa por tal motivo é inutil e vergonhosa para nós todos. Eu já disse a Leoncio o que tinha de dizer; elle que se decida; faça o que entender. Se quizer ser homem de brio e pundonor, ainda é tempo. Se não, deixe-me, que eu o entregarei ao desprezo, que merece.
—Oh! Malvina! estou prompto a fazer todo o possivel para te tranquillizar e contentar; mas deves saber que não posso satisfazer o teo desejo sem primeiro entender-me com meo pae, que está na côrte. É preciso mais que saibas, que meo pae nenhuma vontade tem de libertar Isaura, tanto assim, que para se ver livre das importunações do pae della, que tambem quer a todo custo libertal-a; exigio uma somma por tal forma exorbitante, que é quase impossivel o pobre homem arranjal-a.
—Ó de casa!... dá licença?—bradou neste momento com voz forte e sonora uma pessoa, que vinha subindo a escada do alpendre.
—Quem quer que é, pode entrar,—gritou Leoncio dando graças ao céo, que tão a proposito mandava-lhe uma visita para interromper aquella importuna e detestavel questão e livral-o dos apuros, em que se via entalado.
Entretanto, como se verá, não tinha muito de que congratular-se. O visitante era Miguel, o antigo feitor da fazenda, o pae de Isaura, que havia sido outróra grosseiramente despedido pelo pae de Leoncio.