E a vista sonda, reconstrue, compára.
Tantos naufragios, perdições, destróços!
—Ó fulgida visão, linda mentira!

Roseas unhinhas que a maré partira…
Dentinhos que o vaivem desengastára…
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos…

Foi um dia de inuteis agonias.
Dia de sol, inundado de sol!…
Fulgiam nuas as espadas frias…
Dia de sol, inundado de sol!…

Foi um dia de falsas alegrias.
Dáhlia a esfolhar-se,—o seu molle sorriso…
Voltavam os ranchos das romarias.
Dáhlia a esfolhar-se,—o seu molle sorriso…

Dia impressivel mais que os outros dias.
Tão lúcído… Tão pallido… Tão lúcido!…
Diffuso de theoremas, de theorias…

O dia futil mais que os outros dias!
Minuete de discretas ironias…
Tão lúcido… Tão pallido… Tão lúcído!…

Passou o outono já, já torna o frio…
—Outono do seu riso maguado.
Algido inverno! Obliquo o sol, gelado…
—O sol, e as aguas limpidas do rio.

Aguas claras do rio! Aguas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cançado,
Para onde me levaes meu vão cuidado?
Aonde vaes, meu coração vazío?

Ficae, cabellos d'ella, fluctuando,
E, debaixo das aguas fugidias,
Os seus olhos abertos e scismando…

Onde ides a correr, melancolias?
—E, refractadas, longamente ondeando,
As suas mãos translucidas e frias…