Perseguida, cansada de fingir, exhausta de pretextos, Elisa disse á sua companheira de dous annos:
—Eu amo-te muito, minha querida amiga. És a primeira e a unica pessoa a quem consagrei a minha alma, e todos os instantes da minha existencia, que não será longa, longe de ti; mas não posso contar com o teu apoio toda a vida. Preciso de ser independente, como tu és, para bem avaliar as tuas generosidades. A verdadeira e duradoira amizade firma-se na independencia...
—Olha que me ultrajas, Elisa! Eu fiz-te nunca sentir a tua dependencia?
—Fizeste.
—Fiz! isso é uma mentira, que me escandalisa!
—Fizeste com os teus carinhos. Quanto mais procuravas esconder aos meus proprios olhos os beneficios, que me fazias, mais os olhos do meu coração se abriam, para vêl-os, e mais devedora me considerava aos teus extremos. Quer Deus que eu seja o que não poderei ser de outra maneira. Serei rica. Não digo que seja feliz; porque a ventura não a dá o ouro, nem as lagrimas da saudade se enxugam com o dinheiro. Mas eu sou sempre a tua amiga. Serás sempre a minha confidente. Serão reciprocas as nossas casas, e as nossas riquezas. Viveremos tão juntas como até aqui. Terás, mais ditosa que eu, um marido da eleição da alma. Serás venturosa, com elle, e eu um dia... talvez... bem cedo... viuva, e rica... serei outra vez a tua irmã, debaixo das mesmas telhas...
—Isso nunca!
—Nunca!... porquê?...
—Nunca!... Quem me não amou até hoje, virá depois offerecer-me riquezas que despréso, e não preciso.
—Eu não virei offerecer-te riquezas, porque rica és tu. Virei outra vez atar o fio que se vai quebrar entre os nossos corações, se é que a separação de instantes é um laço de dous corações que se desata! Rosa, não chores, que me comprimes o seio... Dá-me a tua mão... não sentes que estas palpitações só tuas podem ser? Apraz-te martyrisar a tua amiga?