«Ill.mo snr.
«Hontem recebi a sua preciosa carta. O meu coração delirou de contentamento, e a minha penna não póde fielmente interpretar os jubilos do espirito.
«Não se resiste aos seus carinhos. É-se arrastada involuntariamente para a fascinação dos seus affectos. Deslumbra-se o entendimento, e humilda-se o amor proprio na presença de v. s.ª
«Sim. Eu serei sua esposa, e satisfarei assim a mais incendiaria ambição da minha alma. O matrimonio, porém, é de todos os passos o mais sério passo da vida. Se resvala o pé, o casamento é o desfiladeiro, que conduz ao tumulo. Eu mando calar a minha paixão. Faço que o cego amor emmudeça para que a razão falle. Raciocinemos, pois, que assim é preciso.
«V. s.ª já conhece bem o meu caracter? Creio que não. Eu não sou uma mulher trivial. Tenho um grande coração para amar; mas o amor não é suficiente alimento para elle. Sou ambiciosa de brilho, de ostentação, de gloria, e não poderia fazer feliz um homem pobre, porque preciso resplandecer aos olhos de meu marido e aos dos estranhos.
«Este brilho, que ambiciono, não é um instrumento com que eu queira ferir a minha honra, ou a honra de meu marido. Pelo contrario, humilde para elle a quem devo tudo serei soberba da minha grandeza para todos os outros.
«Se me quer para esposa, se me quer para dominar o seu coração, e ser dominada no meu, é preciso que v. s.ª se comprometta, por sua palavra de honra, a não embaraçar-me no livre gôso da riqueza que me transmitte, desde o instante em que um eterno vinculo nos prender.
«Eu sei que v. s.ª vive acostumado a uma mediania que não enquadra no meu grande espirito. Não vá esse fatal habito, no futuro, transtornar a nossa tranquillidade. Reflexione, senhor Silva, emquanto é tempo; e responda-me quando o coração concordar com as meditadas reflexões que tem a honra de fazer-lhe esta que é
«De v. s.ª
«Muito affectuosa amante, e attenta veneradora,