—Basta! Eu não admitto escarneos! Basta de affrontas!
—Cada vez agradeço mais á Providencia a inspiração de me casar... adeus...
Rosa Guilhermina pensou alguns minutos, arrependeu-se, e correu a procurar a sua amiga para pedir-lhe perdão d'um accesso de cólera, filho do amor. Já a não viu. Tinha sahido com a sua criada, e deixára um bilhete com estas linhas:
«Não levo os vestidos de meu uso, porque não são meus. Comprou-os com o seu dinheiro a senhora D. Rosa Guilhermina. Deixo-os para serem avaliados, e descontados depois no saldo das nossas contas.»
A filha de Anna do Carmo, outra vez atacada de raiva, foi aos vestidos, e rasgou-os com mãos e dentes, praguejando.
Que taes eram as bichas!
[CAPITULO XVI]
Não conheço palavra que vos dê uma cabal ideia da sensação suavissima que atravessou até ao coração os tecidos adiposos do senhor Antonio, quando os seus olhos peccadores leram o bilhete de Maria Elisa. A ultima linha, porém, essa que declara a entrada da noiva no recolhimento, fendeu no peito do alvoroçado negociante um vesuvio d'amor, misturado de orgulho, por se vêr amado d'uma donzella, que tão nobre amostra dava da sua virtude.
Cinco minutos depois que Elisa entrára, com grande pasmo e má vontade da regente, era procurada na portaria pelo rico negociante, muito conhecido n'aquella casa, em virtude dos cargos importantes que tivera na Sancta Casa da Misericordia. A pedido do senhor Antonio, a regente acompanhou a menina á grade em que era esperada pelo mais ditoso dos mortaes.
Trocados de parte a parte os cumprimentos, o festival Antonio José da Silva abriu assim a questão do momento: