—Creia que disse a verdade; e, senão, despersuada-me que eu serei docil...

—Não a contradigo, minha senhora. Pelo contrario, sou da sua opinião. Minha mãe, esta menina é um anjo, e tem um talento extraordinario...

—Não o creia, minha senhora.

—Não preciso que m'o diga. Meu marido soube dar-me o gosto para apreciar o merito das pessoas. Se fiquei pobre de bens, posso afoutamente dizer que o não fiquei de intelligencia. A senhora D. Rosa Guilhermina é um portento. Ninguem dirá o que aqui está, sem se lhe importar com o mundo, onde as tôlas, com algum palavriado, recebem acclamações de espertas.

—Ai! eu não ambiciono lisonjas do mundo!... Gosto de saber, porque o meu espirito precisa d'este alimento.

—E o seu coração?—perguntou Augusto.

Rosa baixou os olhos, e a sua linda face, côr de cereja, fez-se mais linda.

—São horas de nos retirarmos—atalhou a irmã do negociante, que resumia em si a finura que a natureza caprichosa não quiz regularmente distribuir na sua numerosa e estupida familia.—Menina, dê-me um abraço.

Augusto apertou a mão de Rosa, que hesitava, não obstante as Cartas a Sophia... Despediram-se com requebros e olhaduras de varios modos, e feitiços, de parte a parte.

Seguiram-se as visitas regularmente. D. Custodia Hermenegilda acompanhava sempre seu filho. (Seja dito para socego da opinião publica.) A estanqueira reformou a sua opinião a favor de Rosa, e vingou-se em pedir trinta reis de divida de simonte, que a fiadeira intromettida lhe devia. A outra, que dobava, e cujo nome não me lembra, vingou-se da visinha, batendo-lhe á porta alta noite. Tantas vezes repetiu a graça, que se constipou, e constipação foi esta que a pobre mulher morreu no hospital, declarando, á hora da morte, que nunca vira entrar de noite homem nenhum em casa de Rosa, e que fôra a estanqueira que a mettera n'aquella alhada: declaração que fazia para que Deus não condemnasse a sua alma, traste, realmente, de que Deus, de bom grado, se dispensaria, e nós tambem.