—Deus perdôe á alma de seu pae... Não lhe quero por isso amaldiçoar a memoria... Pois, quer me acredite, quer não, esta desgraçada mulher, que não conhece, esta velha, que ainda não tem quarenta e quatro annos, é sua mãe.

—Não acredito, já lh'o disse... Prove-me que é minha mãe, e eu lhe farei aquillo que já lhe quiz fazer, se vmc.e é uma tal Anna do Carmo, que morou na rua Direita.

—Sou uma tal Anna do Carmo, que morou na rua Direita, e agora mora no pateo dos conventos, esperando a tigella de caldo da caridade. Bem vê que soffri muito antes que viesse importunal-a. Não disse a ninguem que a menina era minha filha para a não envergonhar. Lembrei-me de que sendo eu moça e rica do muito que seu pae me dava, não gostei de que minha pobre mãe viesse um dia procurar-me para me pedir doze vintens para comprar uma gallinha para minha pobre irmã, que morreu de miseria depois d'um parto... Lembrou-me o quanto eu me vexei então, e quiz poupar minha filha a similhantes vergonhas, que só sabe o que ellas são quem passa por ellas. Agora, se aqui vim, é porque de todo em todo já não podia levantar-me das palhas para ir de manhã procurar a bemdita esmola no pateo de S. Bento e de Sancta Clara. Sinto-me quasi sem vida, tenho um aneurisma no coração, e queria vêr se morria descansada para me reconciliar com a misericordia divina... Se não fosse isto, minha filha, eu não vinha de certo aqui, de mais a mais, tão rota, tão magra, indigna de me chamar sua mãe...

Rosa Guilhermina tinha soffrido um abalo, e parece que as lagrimas iam saltar-lhe involuntariamente dos olhos. Mas a criada, que viera collocar-se, sem ser vista, na alcova proxima da sala, adivinhando a commoção de sua ama, resolveu salval-a das arteirices da velha, e tomou a palavra, saltando para o meio da sala, com a mão na cintura:

—Pois v. s.ª acredita o que lhe está dizendo essa onzeneira?

—Não... eu não acredito, mas tenho pena d'ella... Coitadinha... é a necessidade que lhe ensina estas mentiras... Quer vmc.e uma chicara de chá?

—Não, menina, eu já não quero a sua chicara de chá. Deus Nosso Senhor dá-me forças para que eu possa viver sem a sua esmola. O que eu queria era morrer, abraçando-a ao meu coração, e chamando-lhe filha...

—Será ella douda!—atalhou a criada.

—Não sou douda, não... Não receie que eu lhe quebre as suas jarras... Estou no meu perfeito juizo... Estejam descansadas que não farei doudice nenhuma. Se fosse ha um anno, poderia fazel-as... Hoje, já não... A desgraça enfraquece a gente, e apura o entendimento... Conheço muito bem minha filha...

—E ella a dar-lhe com o minha filha!...—interrompeu a criada.